A estrondosa goleada por 7 a 1 e a consequente classificação do Flamengo diante do Tolima significou também um marco na história da Libertadores -- e não necessariamente positivo. Pela primeira vez, a fase de quartas de final será composta por times de apenas dois países. Até agora são cinco brasileiros (Corinthians, Palmeiras, Atlético, Flamengo e Athletico-PR ) e dois argentinos (Talleres e Vélez Sarsfield). Amanhã, na cidade de La Plata, o confronto entre Estudiantes e Fortaleza define a última vaga.
O duopólio argentino-brasileiro, com a balança pendendo
fortemente para o lado de cá da fronteira, é reflexo óbvio da disparidade
financeira em relação ao restante do continente. A falta de equilíbrio já havia
ficado evidente na composição das semifinais dos últimos anos (nos últimos
cinco anos, o Barcelona de Guayaquil foi o único clube fora de Brasil e
Argentina a se intrometer entre os quatro melhores, em 2017 e 2021) e agora
manifesta-se ainda numa instância anterior. Mesmo países que conseguiam furar a
bolha nos últimos anos ficaram pelo caminho, como Equador e Paraguai.
Esse predomínio de Brasil e Argentina entre os oito melhores
do continente já havia ameaçado acontecer em 2018, e só não ocorreu porque na
ocasião o Colo Colo eliminou o Corinthians nas oitavas de final. A conformação
do futebol continental mudou velozmente nos últimos anos, na velocidade das
caixas registradoras.
Para fins de ilustração, em 2016 nada menos que seis países
estavam representados a essa altura do torneio continental: Brasil (Atlético-MG
e São Paulo), Argentina (Rosário Central e Boca Juniors), Colômbia (Atlético
Nacional), México (Pumas), Equador (Independiente del Valle) e Uruguai
(Nacional). Não por acaso, também foi o ano que consagrou o último campeão fora
de Brasil e Argentina -- o Atlético Nacional, que disputou uma final hoje
impensável contra o Independiente del Valle.
São apenas seis anos, mas a diferença no campo faz parecer
seis décadas. Recuperar o equilíbrio não é uma tarefa simples, e talvez nem
interesse à Conmebol, que obviamente não vê com maus olhos os clubes ricos
desfilando em seu principal torneio (ou produto), ainda que essa discrepância
de representatividade em relação aos demais países possivelmente resulte na
perda de interesse (e audiência) no restante do continente e na desvalorização
da própria Libertadores.
Uma saída óbvia seria diminuir o número de vagas (que hoje é
excessivo) de Brasil e Argentina, mas daí teria de combinar com os russos -- no
caso os próprios brasileiros e argentinos, que por motivos óbvios não estão
exatamente incomodados com o atual estado das coisas. Enquanto isso, o torneio
que homenageia os libertadores segue uma lógica que exclui grande parte da
América do Sul.

0 comentários:
Postar um comentário